Leio como quem aceita um pacto de silêncio.
Não abro livros,
abro feridas alheias
onde encontro as minhas.
Ler é aceitar um pacto de silêncio
com alguém que sangrou antes de mim.
É entrar no quarto escuro de uma mente desconhecida
e deixar que me fale ao ouvido como se já me conhecesse.
Leio devagar,
como quem toca num corpo ferido.
Como quem sabe que há dor em cada frase
e que virar a página pode ser traição.
Não leio para saber.
Leio para não estar sozinho no abismo.
Para descobrir que alguém já pensou o que me mata.
Que alguém teve a coragem de escrever
o que eu ainda não consegui dizer.
Um livro é uma carta sem destinatário
onde eu assino no fim, como cúmplice.
Os outros querem histórias.
Eu quero cumplicidade.
Não procuro narrativas,
procuro vozes que tremem,
frases com febre,
palavras que me digam:
“eu também duvidei de tudo”.
Já fechei livros como se fechasse um caixão.
Já reli parágrafos como se fossem orações pagãs.
Já chorei no fim sem saber se era por mim ou por quem escreveu.
Leio para me reconhecer nos escombros dos outros.
Para dialogar com fantasmas.
Para me calar enquanto alguém diz por mim
aquilo que sempre soube, mas não sabia nomear.
Um bom livro não é um espelho.
É um cúmplice que guarda os teus segredos
sem nunca os ter lido.
Vítor Corvo
